Milhares de gatos vivem livremente em Istambul, cuidados pela comunidade. Descubra a origem histórica, cultural e religiosa deste vínculo único na Turquia.
Olyvio Marques
Editor · Turquia · · 4 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Em Istambul, é impossível caminhar sem notar os milhares de gatos que circulam livremente por ruas, cafés, lojas e monumentos históricos. A cidade abriga uma população estimada em mais de 160 mil felinos de rua, que não são vistos como abandonados, mas como parte integrante da comunidade. Atualizado em 24 de outubro de 2026.
Essa convivência única, onde os animais são alimentados e protegidos por moradores e comerciantes, tem raízes profundas que misturam história, cultura e religião, transformando os gatos em um verdadeiro símbolo da maior cidade da Turquia.
A forte presença de felinos em Istambul é resultado de uma combinação de fatores práticos e culturais que remontam a séculos. A relação não surgiu de um único evento, mas evoluiu ao longo do tempo.
Desde a época em que era conhecida como Constantinopla, a cidade foi um dos mais importantes centros comerciais do mundo. Navios que chegavam aos seus portos traziam gatos a bordo para controlar a população de ratos e proteger as cargas de grãos e outras mercadorias, como aponta o portal Brasil em Folhas. Muitos desses felinos acabavam permanecendo na cidade, onde encontraram um ambiente favorável para se reproduzir em armazéns e mercados.
Durante o Império Otomano, os gatos já eram vistos como aliados essenciais no controle de pragas urbanas. Segundo a Viagem e Turismo, contar com os felinos tornou-se uma necessidade sanitária em uma metrópole densamente povoada.
Diferente da Europa medieval, onde os gatos foram associados à bruxaria e perseguidos, no Império Otomano eles eram tratados com respeito. No Islã, religião majoritária, os felinos são celebrados por sua limpeza e pureza, podendo circular livremente até mesmo em mesquitas. Histórias tradicionais contam que o Profeta Muhammad tinha um gato chamado Muezza, a quem protegia e tratava com grande carinho, conforme relatado por O Globo e o portal Sapo.
Os gatos de Istambul não são considerados nem animais de estimação tradicionais, nem simplesmente de rua. Eles formam uma categoria híbrida de "pets comunitários". É comum ver potes com água e ração nas calçadas, além de pequenas casas de madeira construídas por moradores para abrigá-los do frio, uma prática documentada por diversas fontes.
O poder público também participa desse cuidado coletivo. A prefeitura de Istambul mantém serviços veterinários para os animais de rua, que incluem vacinação, castração e tratamento. Segundo dados divulgados por O Globo, a administração municipal esterilizou mais de 43 mil gatos em 2025. Além disso, a cidade conta com o "Vetbus", um serviço móvel que leva atendimento a diferentes bairros.
A relação com os felinos se tornou parte da identidade cultural e turística de Istambul. Alguns animais se tornaram celebridades, como Tombili, que ficou famoso por uma foto em que posava relaxadamente em uma calçada e ganhou uma estátua de bronze após sua morte em 2016. Outra figura conhecida foi Gli, uma gata que viveu por anos na Basílica de Santa Sofia e foi acariciada pelo ex-presidente dos EUA, Barack Obama, em 2009.
A fama da cidade foi amplificada internacionalmente pelo documentário "Kedi" (2016), que acompanha a rotina de sete gatos de rua e a interação deles com os moradores. A arte também se inspirou nos felinos: a 18ª Bienal de Istambul adotou "O Gato de Três Pernas" como tema, usando o animal como símbolo de resiliência e adaptação.
A grande população de gatos deve-se a fatores históricos, como o uso de felinos para controlar ratos em navios e armazéns desde o período otomano, e a fatores culturais, já que no Islã os gatos são animais respeitados e vistos como puros.
Eles são cuidados de forma comunitária. Moradores e comerciantes fornecem comida, água e abrigos. Além disso, o governo municipal oferece serviços veterinários gratuitos, incluindo programas de castração, vacinação e tratamento para animais feridos.
Sim, mas o processo exige planejamento. De acordo com o portal Brasil em Folhas, o animal precisa passar por um processo de adoção e regularização na Turquia, que inclui microchip e certificado veterinário oficial. Para entrar no Brasil, é necessário apresentar o Certificado Veterinário Internacional (CVI) e cumprir as regras sanitárias, como vacinação antirrábica.
A relação entre Istambul e seus gatos é um exemplo singular de convivência harmoniosa entre humanos e animais em uma grande metrópole. Mais do que uma curiosidade turística, os felinos são guardiões silenciosos da história e parte essencial da alma da cidade, representando uma tradição de cuidado e respeito que atravessa gerações.