Decisão da Justiça Federal reconhece dano moral a descendente do 'Almirante Negro' por documento que atacou a memória do líder da Revolta da Chibata.
Olyvio Marques
Editor · Justiça · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
A Justiça Federal condenou a União a pagar uma indenização de R$ 300 mil por danos morais a Adalberto Cândido, filho de João Cândido Felisberto, o "Almirante Negro". A decisão, proferida pela 4ª Vara Federal do Rio de Janeiro, reconhece que manifestações oficiais da Marinha do Brasil foram ofensivas à memória do líder da Revolta da Chibata de 1910. Atualizado em 22 de julho de 2026.
A ação judicial foi motivada por um documento que a Marinha enviou à Câmara dos Deputados em 2024. No texto, a instituição classificou a Revolta da Chibata como uma "deplorável página da história nacional" e usou termos que desqualificavam seus participantes, conforme noticiado pela CNN Brasil e outros veículos.
Segundo a sentença, embora a Marinha tenha liberdade para apresentar suas interpretações históricas, essa prerrogativa não permite o uso de "linguagem estigmatizante" contra uma figura que já foi anistiada pelo próprio Estado brasileiro em 2008. A decisão, que acolheu parcialmente um parecer do Ministério Público Federal (MPF), considerou que as ofensas causaram um dano moral reflexo ao descendente direto de João Cândido.
Adalberto Cândido também solicitava o reconhecimento de todos os efeitos econômicos e financeiros da anistia concedida ao pai, como promoções retroativas, contagem de tempo de serviço e pensões militares. No entanto, esses pedidos foram negados pela Justiça.
A decisão aponta que parte das pretensões já estava prescrita ou era impedida pela própria Lei de Anistia (nº 11.756/2008), que teve os dispositivos de reparação financeira vetados na época de sua sanção, de acordo com o MPF.
Esta não é a primeira vez que o documento da Marinha gera uma condenação. Em maio de 2026, a Justiça já havia condenado a União a pagar R$ 200 mil por dano moral coletivo em uma ação movida pelo MPF. Naquele caso, o valor foi destinado a projetos de preservação da memória de João Cândido e da revolta.
João Cândido Felisberto, conhecido como "Almirante Negro", foi o líder da Revolta da Chibata, um levante ocorrido em novembro de 1910. Marinheiros, em sua maioria negros, rebelaram-se contra os violentos castigos físicos, como as chibatadas, que eram aplicados na Marinha brasileira. O movimento exigia o fim das punições corporais, melhores salários e condições de trabalho dignas. Apesar da promessa de anistia para encerrar a rebelião, João Cândido e outros participantes foram perseguidos e expulsos da corporação.
A Marinha foi condenada por ter enviado um documento oficial à Câmara dos Deputados em 2024 com termos considerados ofensivos à memória de João Cândido, que já havia sido anistiado pelo Estado. A Justiça entendeu que a ofensa atingiu diretamente seu filho.
O valor da indenização por danos morais foi fixado em R$ 300 mil.
Não. A Justiça negou os pedidos relacionados aos efeitos financeiros e econômicos da anistia de 2008, como promoções e pensões retroativas, por questões legais e de prescrição.
A condenação da União reforça a responsabilidade do Estado na proteção da honra e memória de figuras históricas, estendendo esse direito aos seus descendentes. A decisão judicial destaca o conflito entre a interpretação histórica de uma instituição e o respeito a um personagem já reabilitado oficialmente pela anistia.
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