Nos EUA, empresas pagam até R$ 125/hora para pessoas gravarem tarefas domésticas e gerarem dados para IA. Entenda a nova profissão e as polêmicas envolvidas.
Olyvio Marques
Editor · Notícias · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Nos Estados Unidos, uma nova modalidade de "bico digital" está ganhando força: ser pago para realizar tarefas domésticas, como lavar louça e limpar a casa, usando uma câmera acoplada ao corpo. Cada movimento é transformado em dados valiosos para treinar a próxima geração de robôs domésticos, redefinindo o futuro do trabalho na era da inteligência artificial. Atualizado em 22 de junho de 2026.
O avanço da inteligência artificial física, aquela que move máquinas no mundo real, enfrenta um obstáculo fundamental: a falta de dados. Diferente dos modelos de linguagem, que podem ser treinados com a vastidão da internet, não há um repositório equivalente para ações físicas. "Não existe uma internet para dados de robótica", afirmou Ken Goldberg, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, em declaração repercutida pela Época Negócios.
A escala do desafio é imensa. Enquanto os dados para treinar modelos de linguagem somam o equivalente a 100 mil anos de leitura, o maior conjunto de dados de robótica corresponde a apenas cinco anos de vídeos assistidos. Para que um robô aprenda a dobrar uma camiseta, ele precisa observar milhares de exemplos de como humanos realizam essa tarefa, algo que está impulsionando um novo mercado de coleta de dados.
Empresas de tecnologia estão adotando diferentes abordagens para coletar esses dados. A DoorDash, conhecida por seu aplicativo de entregas, passou a contratar trabalhadores para gravar a si mesmos executando tarefas domésticas com smartphones acoplados à cabeça, pagando até US$ 25 (cerca de R$ 125) por hora, segundo a Época Negócios.
Outra iniciativa é da startup alemã MicroAGI, que oferece serviços de limpeza gratuitos em Nova York. Em troca, os moradores permitem que os profissionais de limpeza gravem todo o processo com câmeras em capacetes, apelidados de "chapéus mágicos". O objetivo é o mesmo: criar um banco de dados massivo para ensinar robôs a limpar e organizar ambientes domésticos.
A coleta de dados dentro de residências levanta sérias questões de privacidade. A MicroAGI afirma usar sistemas para anonimizar rostos e informações sensíveis, mas não esclarece se os participantes podem solicitar a remoção definitiva das gravações. Além disso, a empresa se isenta de responsabilidade por danos ou furtos, gerando controvérsia.
Outro ponto crítico é o trabalho humano oculto por trás da suposta autonomia dos robôs. Muitas demonstrações de humanoides são, na verdade, controladas remotamente por operadores humanos em um processo chamado teleoperação. A startup 1X, por exemplo, planeja ter centrais de atendimento onde técnicos podem pilotar robôs para realizar tarefas complexas na casa dos clientes, como passar roupas, o que significa que um estranho estaria, de fato, "vendo" através das câmeras do robô dentro de sua casa.
Os valores variam, mas empresas como a DoorDash oferecem até US$ 25 (cerca de R$ 125) por hora para trabalhadores gravarem a si mesmos realizando tarefas domésticas, de acordo com informações da Época Negócios.
Diversas companhias estão na corrida por dados de robótica, incluindo a plataforma DoorDash, a startup alemã MicroAGI e a empresa de robótica Figure, que também planeja capturar dados em ambientes domésticos.
A resposta é incerta. Ken Goldberg, especialista em robótica da Universidade da Califórnia em Berkeley, afirma que pode levar "dois, três, cinco, dez, vinte anos ou mais", destacando o grande desafio tecnológico que ainda precisa ser superado.
A necessidade de treinar robôs para tarefas do mundo real criou uma nova economia onde gestos cotidianos se tornam uma matéria-prima valiosa. Esse "bico digital" oferece uma nova fonte de renda, mas também inaugura um debate complexo sobre privacidade, a transparência da automação e o paradoxo de seres humanos serem pagos para treinar as máquinas que podem, eventualmente, substituí-los no futuro.
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