Um estudo na Antártica descobriu que as misteriosas Cataratas de Sangue são um refúgio para descendentes de microrganismos marinhos presos sob o gelo.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 2 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Atualizado em 5 de agosto de 2026. Um novo estudo revelou que as enigmáticas Cataratas de Sangue, na Antártica, abrigam uma comunidade ativa de microrganismos que são descendentes de antigas criaturas marinhas. A pesquisa, publicada na revista científica Nature Geoscience, oferece a evidência biológica mais robusta até hoje de que a água avermelhada tem origem em um antigo ambiente oceânico que ficou isolado sob a Geleira Taylor há centenas de milhares de anos.
Descobertas em 1911 pelo geólogo Thomas Griffith Taylor, as Cataratas de Sangue são um fluxo de água extremamente salgada que escorre da Geleira Taylor para o Lago Bonney, nos Vales Secos de McMurdo. A sua cor vermelha característica, que inicialmente se pensava ser causada por algas, é na verdade resultado de um processo químico. A água subterrânea é rica em ferro dissolvido e, ao emergir e entrar em contato com o oxigênio da atmosfera, o ferro oxida, criando um efeito semelhante à ferrugem que mancha o gelo, conforme aponta o estudo.
A alta concentração de sal na água, cerca de três vezes maior que a da água do mar, reduz seu ponto de congelamento. Isso permite que a salmoura permaneça líquida mesmo em temperaturas de até -7°C, fluindo por canais sob a geleira.
A pesquisa analisou 167 amostras de água, gelo e sedimentos da região. Os cientistas identificaram uma rica comunidade de microrganismos marinhos, como diatomáceas, dinoflagelados, haptofíceas e ciliados, vivendo no reservatório subterrâneo. Segundo os autores do estudo, o local funciona como "um raro refúgio marinho no deserto polar".
As análises genéticas mostraram que muitos desses organismos permanecem biologicamente ativos, apesar das condições extremas de frio, escuridão e alta salinidade. Eles realizam processos como reparo celular e ativam mecanismos de resposta ao estresse para sobreviver. Algumas espécies também podem entrar em estado de dormência, aguardando condições mais favoráveis.
A presença e a composição dessa comunidade microbiana reforçam a hipótese de que a água ficou aprisionada quando o nível do mar era mais alto e inundou a região, antes de ser selada pelo avanço da geleira. O estudo destaca que 9,34% dos microrganismos encontrados nas Cataratas de Sangue também estavam presentes em amostras oceânicas próximas, uma assinatura biológica forte demais para ser explicada apenas pelo transporte de micróbios pelo vento.
A cor vermelha é causada pela oxidação do ferro. A água que emerge de sob a geleira é uma salmoura rica em ferro dissolvido que, ao entrar em contato com o oxigênio do ar, enferruja, conferindo a tonalidade característica.
Os microrganismos desenvolveram adaptações para lidar com a alta salinidade, o frio intenso e a falta de luz. Análises genéticas indicam que eles possuem mecanismos de reparo de DNA e podem entrar em estado de dormência para sobreviver.
A descoberta transforma as Cataratas de Sangue em uma verdadeira "cápsula do tempo", permitindo que os cientistas estudem um ecossistema antigo de forma direta, em vez de depender apenas de fósseis. Este ambiente único oferece uma oportunidade sem precedentes para entender como a vida pode persistir em condições extremas e como ecossistemas isolados respondem a grandes mudanças climáticas ao longo de milênios.
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