Conheça a trágica história de Sebastiana de Melo Freire. Órfã e herdeira de uma fortuna, viveu 40 anos isolada em um casarão no Bixiga, que virou seu manicômio particular. Entenda o caso.
Olyvio Marques
Editor · História · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
A história de Sebastiana de Melo Freire, conhecida como Dona Yayá, é uma das mais trágicas e intrigantes de São Paulo. Herdeira de uma vasta fortuna após a morte de toda a sua família, ela foi diagnosticada com uma grave doença mental e viveu por 40 anos, de 1921 a 1961, reclusa em um casarão no Bixiga que foi adaptado para ser seu "manicômio particular", com janelas que só abriam por fora. Atualizado em 22 de junho de 2026.
Sebastiana de Melo Freire nasceu em Mogi das Cruzes em 1887, filha de Manuel de Almeida Melo Freire, um rico fazendeiro e político. Sua vida foi marcada por uma série de tragédias familiares. Perdeu duas irmãs na infância e, em 1899, seus pais faleceram com apenas dois dias de diferença, conforme relatado em sua biografia na Wikipédia. Órfã, ficou sob a tutela de Albuquerque Lins junto com seu único irmão, Manuel Júnior.
Em 1905, uma nova tragédia se abateu sobre a família: seu irmão, também diagnosticado com problemas mentais, cometeu suicídio durante uma viagem de navio. Aos 18 anos, Yayá tornou-se a única herdeira da imensa fortuna dos Melo Freire.
Durante o breve período em que pôde administrar seus bens, Yayá mostrou-se uma mulher independente. Morando em um palacete na Rua Sete de Abril, promovia saraus, interessava-se por fotografia e, segundo relatos, recusava pretendentes por acreditar que estavam interessados apenas em seu dinheiro, desafiando as convenções sociais da época que preparavam mulheres para o casamento.
Por volta de 1918, aos 31 anos, Dona Yayá começou a apresentar os primeiros sinais de distúrbios mentais, que culminaram em uma tentativa de suicídio no ano seguinte. De acordo com o Portal do Bixiga, ela foi internada e interditada judicialmente, sendo considerada incapaz de gerir sua fortuna. Seus curadores adquiriram o casarão na Rua Major Diogo, 353, no Bixiga, para isolá-la da sociedade.
O imóvel foi totalmente adaptado para sua condição. Janelas inquebráveis foram instaladas, com a particularidade de só poderem ser abertas pelo lado de fora. As portas ganharam visores para vigilância constante e as refeições eram passadas por pequenas aberturas, como descreve a revista Casa e Jardim. Apesar de ser tratada por psiquiatras renomados como Juliano Moreira e Franco da Rocha, sua condição, diagnosticada como psicose esquizofrênica, progrediu.
Dona Yayá faleceu em 1961, aos 74 anos, sem deixar herdeiros diretos. Sua fortuna, considerada vacante, foi transferida para a Universidade de São Paulo (USP) em 1968. O patrimônio incluía o casarão do Bixiga, dezenas de outros imóveis em São Paulo, edifícios, uma chácara em Mogi das Cruzes e valores em contas bancárias.
Hoje, a Casa de Dona Yayá é um patrimônio histórico tombado e funciona como sede do Centro de Preservação Cultural (CPC) da USP, sendo aberta à visitação pública.
Após ser diagnosticada com psicose esquizofrênica e interditada judicialmente, seus tutores seguiram as práticas da época para tratamento de doenças mentais, que envolviam o isolamento. A casa no Bixiga foi comprada e adaptada para servir como seu "sanatório particular", onde ela viveu por 40 anos até sua morte.
A história trágica de seu enclausuramento alimentou lendas urbanas. Segundo o site Aventuras na História, o casarão ganhou fama de assombrado, com relatos de moradores que diziam ouvir gritos e vê-la nas janelas. Hoje, o local é frequentemente incluído em roteiros de turismo sobre lugares "mal-assombrados" de São Paulo.
Como Sebastiana de Melo Freire não teve filhos ou parentes próximos, após sua morte em 1961, seus bens foram considerados herança vacante. Todo o seu vasto patrimônio, incluindo imóveis e dinheiro, foi transferido para a Universidade de São Paulo (USP) em 1968.
A vida de Dona Yayá é um retrato sombrio do tratamento dado à saúde mental no início do século XX e da vulnerabilidade de uma mulher, mesmo sendo rica e poderosa. Sua história de perdas, riqueza e isolamento deixou como legado um patrimônio que hoje serve à cultura e à educação, preservando a memória de sua trágica existência no coração de São Paulo.
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