Três cães-selvagens-africanos percorreram 4.126 km na Zâmbia em busca de parceiras, a maior distância já registrada. Entenda a odisseia e seus riscos.
Olyvio Marques
Editor · Biologia · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Uma jornada épica de quase 4 mil quilômetros transformou um grupo de cães-selvagens-africanos (Lycaon pictus) nos novos recordistas de distância percorrida por um mamífero terrestre na África. Monitorados por pesquisadores na Zâmbia, os animais realizaram a viagem em busca de parceiras para acasalamento, revelando tanto a incrível resistência da espécie quanto as graves ameaças que enfrentam. Atualizado em 24 de setembro de 2026.
A jornada, descrita como uma "odisseia" por pesquisadores, começou em julho de 2025, quando um grupo de sete cães-selvagens (quatro fêmeas e três machos) deixou a segurança do Parque Nacional de Kafue, na Zâmbia. Segundo estudo publicado na revista científica Ecology, esse comportamento, conhecido como dispersão, é comum na espécie. Em suas matilhas, apenas o casal dominante se reproduz, levando os mais jovens a buscar novos territórios e parceiros para garantir a continuidade genética.
Apesar de Kafue ser uma área rica em presas e com ampla proteção, os instintos levaram os animais a uma viagem arriscada por paisagens marcadas pela ação humana.
Os três machos do grupo percorreram um trajeto sinuoso que totalizou 4.126 quilômetros, embora a distância em linha reta do ponto de partida fosse de aproximadamente 419 quilômetros. Durante o percurso, eles enfrentaram predadores naturais como leões e hienas, além de atravessarem rios e reservatórios. O monitoramento foi realizado por cientistas da Universidade Estadual de Montana e do Programa de Carnívoros da Zâmbia, que utilizaram coleiras de rastreamento.
Enquanto os machos conseguiram se estabelecer em um novo lar na região do Vale de Luangwa, o grupo de fêmeas teve um desfecho trágico. As coleiras de monitoramento pararam de funcionar, e os pesquisadores acreditam que elas foram vítimas de armadilhas de arame, usadas para caça ilegal. Scott Creel, autor principal do estudo, afirmou à revista Science que as atividades humanas são a maior ameaça para a espécie atualmente.
A jornada extraordinária demonstrou que ainda existem corredores ecológicos conectando as grandes áreas de vida selvagem da África. No entanto, também expôs a fragilidade dessas rotas. A sobrevivência de espécies ameaçadas como o cão-selvagem-africano, com apenas cerca de 6 mil indivíduos restantes na natureza, depende da proteção dessas paisagens conectadas contra a fragmentação de habitat e a caça ilegal.
Os três machos percorreram 4.126 quilômetros, estabelecendo um novo recorde de dispersão para um mamífero terrestre africano, conforme documentado por pesquisadores.
Eles viajam para encontrar parceiros e estabelecer novos territórios. Em suas matilhas, a reprodução é geralmente restrita ao casal dominante, forçando outros membros a se dispersarem para acasalar.
As principais ameaças são de origem humana, incluindo a perda e fragmentação de habitat, doenças e, especialmente, armadilhas de arame instaladas por caçadores, que foram a causa provável da morte das fêmeas do grupo.
A incrível viagem dos cães-selvagens pela Zâmbia é mais do que um recorde: é um alerta. Ela celebra a resiliência de uma espécie fascinante e, ao mesmo tempo, expõe a urgência de proteger os corredores naturais que garantem sua sobrevivência. A conservação depende não apenas de parques isolados, mas da manutenção de uma paisagem conectada e segura para a vida selvagem.
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