Um espécime de cobra coletado em São Tomé em 1885 e considerado perdido foi reencontrado na Polônia, reabrindo um debate científico de 150 anos sobre sua espécie.
Olyvio Marques
Editor · Biologia · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Um espécime de mamba-verde coletado na ilha de São Tomé em 1885, considerado perdido por décadas, foi redescoberto em um museu na Polônia. A descoberta, detalhada em um estudo na revista científica Annales Zoologici, pode finalmente resolver um mistério de mais de 150 anos sobre a identidade da serpente. Atualizado em 28 de setembro de 2026.
A história começa entre maio e setembro de 1885, quando o botânico português Adolfo Frederico Möller coletou a serpente durante uma expedição a São Tomé, uma ilha na costa oeste da África. O animal foi examinado por zoólogos da época, mas sua classificação gerou controvérsia. O zoólogo russo Jacques Vladimir von Bedriaga a identificou como uma mamba-verde-oriental (Dendroaspis angusticeps), enquanto o português José Vicente Barbosa du Bocage sugeriu que poderia ser uma mamba-de-Jameson (Dendroaspis jamesoni), conforme relatado pela Discover Wildlife.
O enigma se aprofundou porque os exemplares históricos desapareceram. Dos três espécimes coletados em São Tomé no século XIX, dois foram destruídos durante a Segunda Guerra Mundial. O terceiro, associado a Bedriaga, ficou com o paradeiro desconhecido por décadas, ganhando o apelido de "mamba-verde fantasma".
Pesquisadores que revisavam coleções de répteis de São Tomé e Príncipe encontraram o espécime perdido no Museu e Instituto de Zoologia da Academia Polonesa de Ciências, em Varsóvia. O animal estava preservado e identificado com o número de catálogo MIZ 73634, segundo o Times of India. A redescoberta finalmente permite que cientistas modernos apliquem novas técnicas para analisar a cobra.
A reavaliação morfológica do espécime trouxe uma pista importante: suas características, como contagem de escamas e proporções corporais, são consistentes com as da mamba-verde-ocidental (Dendroaspis viridis), uma espécie encontrada na África Ocidental continental. Segundo o estudo, a análise também ajudou a explicar detalhes incomuns nas descrições originais, como um ferimento que sugere que a cobra foi abatida de uma árvore antes de ser preservada.
No entanto, a análise morfológica sozinha não é conclusiva. Apenas testes de DNA poderão determinar se a população de São Tomé era idêntica à do continente ou se representava um grupo geneticamente distinto, talvez até uma nova espécie.
As mambas-verdes pertencem ao gênero Dendroaspis, um grupo de cobras peçonhentas e ágeis da família Elapidae, nativas da África subsaariana. Conforme a enciclopédia Wikipedia, existem três espécies de mambas-verdes, todas de hábitos arborícolas, ou seja, que vivem em árvores.
Em taxonomia, a ciência que classifica os seres vivos, um espécime preservado funciona como um registro físico da biodiversidade de uma época. Ele permite que pesquisadores analisem características físicas e genéticas para identificar espécies, como explicado por especialistas da UFRRJ. Em ilhas como São Tomé, onde o isolamento pode gerar espécies únicas, um único exemplar é uma peça-chave para entender a história natural e a evolução da fauna local.
Não há confirmação de uma população viva de mambas-verdes na ilha atualmente. A redescoberta se refere a um animal coletado em 1885. Pesquisas recentes não encontraram novos exemplares, mas os cientistas ressaltam que uma cobra arborícola pode ser extremamente difícil de detectar em habitats florestais, deixando seu status atual incerto.
A redescoberta do espécime da "mamba-verde fantasma" é um avanço significativo para resolver um antigo quebra-cabeça herpetológico. Embora a análise inicial a aproxime da mamba-verde-ocidental, o mistério sobre sua origem e identidade genética persiste. Futuras análises de DNA serão cruciais para revelar se São Tomé abrigou uma população única desta icônica serpente africana.
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