Pesquisadores da UFRJ detectaram o antidepressivo sertralina no cérebro de tubarões-martelo no litoral do Rio. Entenda como a poluição farmacêutica chega ao mar.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Pesquisadores do Projeto EcoShark, da UFRJ, identificaram pela primeira vez no Brasil a presença do antidepressivo sertralina no cérebro de tubarões-martelo no litoral do Rio de Janeiro. A descoberta, ainda pendente de revisão por pares, acende um alerta sobre o impacto da poluição farmacêutica nos oceanos. Atualizado em 6 de julho de 2026.
Uma equipe de biólogos analisou 20 tubarões-martelo de duas espécies ameaçadas — o tubarão-martelo-recortado (Sphyrna lewini) e o tubarão-martelo-liso (Sphyrna zygaena) — capturados acidentalmente por pescadores parceiros em locais como Copacabana, Barra da Tijuca e Recreio. Segundo a coordenadora da pesquisa, Mariana Alonso, a sertralina foi detectada na maior parte dos exemplares.
O que mais chamou a atenção dos cientistas foi a alta concentração do fármaco no cérebro dos animais, e não no fígado, que é o órgão onde a maioria dos contaminantes costuma se acumular. A pesquisa durou cerca de três anos, envolvendo coleta, análises laboratoriais e interpretação de dados.
As espécies estudadas enfrentam sérios riscos de extinção. O tubarão-martelo-liso é classificado como vulnerável, enquanto o tubarão-martelo-recortado é considerado criticamente ameaçado, um dos maiores níveis de risco de desaparecimento, de acordo com a Folha de S. Paulo.
O caminho da sertralina até o cérebro de um tubarão começa com o consumo humano. Após ser metabolizado, o fármaco é excretado e entra no sistema de esgoto. As estações de tratamento convencionais não são projetadas para remover completamente esses resíduos, conhecidos como contaminantes emergentes.
No Rio de Janeiro, onde apenas 47% do esgoto é tratado, parte significativa desses resíduos é lançada no oceano, conforme dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) citados pela Superinteressante. Os tubarões, como predadores de topo, acumulam essas substâncias ao se alimentarem de presas contaminadas ou pela absorção direta da água.
Apesar da presença do medicamento no cérebro, os pesquisadores ressaltam que ainda não há evidências de que os tubarões tenham sofrido alterações comportamentais ou fisiológicas. "Encontrar o contaminante foi o primeiro passo. Agora precisamos entender se ele interfere nos níveis de serotonina dos tubarões e se isso pode alterar seu comportamento", afirmou Mariana Alonso à Folhapress.
Estudos anteriores em laboratório com peixes-zebra expostos à sertralina mostraram alterações como natação mais lenta e dificuldades de aprendizagem. No entanto, ainda não se sabe se efeitos semelhantes podem ocorrer em tubarões, que possuem uma neuroquímica mais parecida com a de mamíferos.
A sertralina é um dos antidepressivos mais prescritos no Brasil, princípio ativo de medicamentos como o Zoloft e diversos genéricos. Ela atua no sistema nervoso central para regular os níveis de serotonina, um neurotransmissor ligado ao humor.
Até o momento, não há comprovação de que a sertralina encontrada tenha alterado o comportamento dos tubarões. A próxima fase da pesquisa do Projeto EcoShark buscará investigar os possíveis efeitos da substância nos animais.
Foram analisadas duas espécies de tubarão-martelo: o tubarão-martelo-recortado (Sphyrna lewini), que está criticamente ameaçado de extinção, e o tubarão-martelo-liso (Sphyrna zygaena), classificado como vulnerável.
A descoberta conecta três crises urgentes: a de saúde mental, com o crescente consumo de medicamentos; a de saneamento básico, que não consegue filtrar poluentes farmacêuticos; e a de conservação marinha, que expõe espécies já ameaçadas a riscos desconhecidos. A presença de sertralina no cérebro de um predador de topo é um sinal claro de como as atividades humanas impactam ecossistemas distantes.
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