Entenda como o uso de cabras rastreadoras, equipadas com GPS, foi crucial para eliminar 140 mil animais invasores e restaurar a vegetação em Galápagos.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Uma inovadora estratégia de conservação nas Ilhas Galápagos usou cabras 'espiãs', equipadas com transmissores de rádio, para localizar e erradicar mais de 140.000 indivíduos de sua própria espécie entre 1997 e 2006. Anos depois, a vegetação e a fauna nativa, incluindo aves e tartarugas-gigantes, mostram sinais de recuperação em três ilhas que estavam devastadas. Atualizado em 12 de agosto de 2026.
Introduzidas por marinheiros, piratas e baleeiros séculos atrás como uma fonte de carne, as cabras domésticas se tornaram uma grave ameaça para a biodiversidade de Galápagos. Sem predadores naturais, sua população explodiu, chegando a cerca de 100.000 exemplares apenas no vulcão Alcedo, na ilha Isabela, conforme documentado pelo Projeto Isabela.
Esses animais consumiam a vegetação endêmica, descascavam árvores e competiam diretamente com as tartarugas-gigantes por alimento. O pastoreio intenso causou erosão severa do solo, transformando áreas verdes em paisagens áridas e ameaçando a sobrevivência de espécies únicas do arquipélago.
Para combater a crise, o Parque Nacional Galápagos e a Fundação Charles Darwin lançaram o Projeto Isabela. A operação, que custou cerca de 10,5 milhões de dólares, combinou métodos tradicionais e tecnologia de ponta para erradicar a espécie invasora de mais de 500.000 hectares.
Inicialmente, equipes com caçadores, cães treinados e helicópteros eliminaram grande parte da população de cabras. Essa abordagem funcionou bem para rebanhos numerosos em terrenos abertos, mas se mostrou ineficiente e extremamente cara para localizar os últimos indivíduos, que se escondiam em campos de lava, cavernas e vegetação densa. O custo para eliminar alguns dos últimos animais chegou a superar os 10.000 dólares por exemplar.
A solução foi usar o comportamento social das próprias cabras contra elas. Os conservacionistas capturaram alguns animais, os esterilizaram e equiparam com colares de rádio. Conhecidas como 'cabras Judas', elas eram soltas para procurar instintivamente a companhia de outros sobreviventes. As equipes seguiam o sinal do rádio, eliminavam o grupo encontrado e deixavam a 'Judas' viva para repetir o processo.
Após a erradicação, os ecossistemas das ilhas Pinta, Santiago e norte de Isabela começaram a se recuperar. Troncos de árvores voltaram a brotar, e plantas endêmicas, como os cactos do gênero Opuntia, reapareceram em áreas abertas.
A fauna também se beneficiou. Um estudo publicado na revista Biological Conservation registrou um aumento notável na população do rascão-de-Galápagos na ilha Santiago, uma ave que depende da cobertura vegetal densa e úmida que havia desaparecido. A remoção da competição também foi vital para a recuperação das populações de tartarugas-gigantes.
Mais de 140.000 cabras invasoras foram eliminadas entre 1997 e 2006 nas ilhas Pinta, Santiago e norte de Isabela, como parte do Projeto Isabela.
Eram cabras capturadas, esterilizadas e equipadas com radiotransmissores. Por serem animais sociais, elas buscavam outros indivíduos da sua espécie, revelando a localização dos últimos grupos escondidos para as equipes de erradicação.
Não completamente. Embora a recuperação seja notável, algumas áreas ainda guardam marcas do pastoreio excessivo e a composição da vegetação nem sempre é idêntica à original. A restauração completa depende também do papel das tartarugas-gigantes como "engenheiras do ecossistema".
O Projeto Isabela se tornou um marco na conservação mundial, demonstrando que mesmo ecossistemas severamente degradados podem se recuperar quando a pressão de espécies invasoras é removida. A combinação de tecnologia, ciência e uma estratégia inovadora provou ser uma ferramenta poderosa para a restauração da biodiversidade única de Galápagos.
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