Uma operação usou cabras com transmissores para erradicar 140 mil invasoras em Galápagos. Entenda como a técnica ajudou a restaurar a vegetação e a fauna.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Uma estratégia inusitada de conservação transformou cabras em rastreadoras para salvar ecossistemas únicos nas Ilhas Galápagos. Entre 1997 e 2006, o Projeto Isabela utilizou animais equipados com radiotransmissores para localizar e erradicar mais de 140 mil cabras invasoras, permitindo que a vegetação nativa e espécies como tartarugas-gigantes e aves começassem a se recuperar. Atualizado em 5 de agosto de 2026.
Introduzidas séculos atrás por marinheiros, piratas e baleeiros como uma fonte de alimento para futuras viagens, as cabras se multiplicaram sem controle no arquipélago. Sem predadores naturais e com vegetação abundante que não evoluiu para resistir a grandes herbívoros, a população explodiu, causando danos severos.
De acordo com a Fundação Charles Darwin e o Parque Nacional de Galápagos, as cabras:
A situação tornou-se crítica em ilhas como Pinta, Santiago e, especialmente, no norte de Isabela, onde a população de cabras chegou a ser estimada em 100 mil indivíduos apenas na região do vulcão Alcedo.
Para combater a devastação, o Projeto Isabela foi lançado como uma das maiores iniciativas de restauração ecológica do mundo. A primeira fase utilizou helicópteros e caçadores para eliminar grandes rebanhos. No entanto, o verdadeiro desafio era encontrar os últimos indivíduos, que se escondiam em terrenos de difícil acesso, como campos de lava e crateras vulcânicas.
Os pesquisadores desenvolveram a técnica da "cabra Judas". Eles capturavam alguns animais, os esterilizavam e os equipavam com coleiras de radiotelemetria antes de soltá-los. Como as cabras são animais sociais, elas instintivamente procuravam outros membros de sua espécie. As equipes de conservação seguiam o sinal do rádio, localizavam o grupo escondido e eliminavam os animais selvagens, deixando a "cabra Judas" viva para continuar a busca.
A estratégia foi aprimorada com as chamadas "cabras Mata Hari": fêmeas esterilizadas que recebiam implantes hormonais para atrair machos remanescentes, tornando a localização ainda mais eficiente.
A remoção de mais de 140 mil cabras de uma área de 500 mil hectares teve um impacto profundo e visível. Poucos anos após o fim do projeto, os ecossistemas começaram a se regenerar.
É uma cabra equipada com um transmissor de rádio, usada por conservacionistas para localizar outros indivíduos de sua espécie. Por seu instinto social de procurar companhia, ela "trai" a localização de rebanhos escondidos, permitindo sua remoção.
A operação, que durou quase uma década, teve um custo aproximado de 10,5 milhões de dólares e foi considerada a maior erradicação de cabras invasoras em ilhas até aquela data.
Não completamente. Embora a recuperação seja notável, os cientistas explicam que as ilhas não retornaram ao estado exato de antes da introdução humana. Algumas áreas ainda mostram os efeitos do pastoreio intenso, e a composição da vegetação pode diferir da original. A recuperação total depende também do papel contínuo das tartarugas-gigantes como "engenheiras do ecossistema".
O Projeto Isabela em Galápagos é um marco na conservação ambiental, demonstrando que mesmo ecossistemas devastados por séculos podem se recuperar quando a pressão de espécies invasoras é removida. A inovadora técnica das "cabras Judas" foi crucial para o sucesso da operação e serve como um modelo para projetos de restauração em todo o mundo.
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