Cientistas identificam melanoma transmissível em bagres de lago entre EUA e Canadá. Entenda como a doença se espalha e se há algum risco para humanos.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Um câncer transmissível foi identificado pela primeira vez em peixes de água doce, especificamente em bagres-cabeça-de-touro-marrons (Ameiurus nebulosus) do lago Memphremagog, na fronteira entre Estados Unidos e Canadá. Atualizado em 27 de julho de 2026. A descoberta, publicada na revista científica Nature, revela que as células de melanoma passam de um animal para outro, agindo mais como um parasita do que como um tumor convencional. Pesquisadores afirmam que não há risco conhecido para a saúde humana.
Diferente de cânceres causados por agentes infecciosos como o HPV em humanos, o câncer transmissível em peixes envolve a própria célula cancerosa migrando de um hospedeiro para outro. Análises genéticas mostraram que os tumores de melanoma encontrados em diferentes bagres eram geneticamente quase idênticos entre si, mas muito diferentes do DNA do peixe que os carregava, conforme detalhado no estudo. Isso indica que todos os tumores descendem de uma única linhagem celular de um "animal fundador", que se espalhou pela população.
O caso começou a ser investigado após pescadores e biólogos relatarem, a partir de 2012, um aumento de bagres com manchas pretas e elevadas na pele. Entre 2014 e 2017, a prevalência chegou a afetar entre 23% e 37% dos bagres da espécie no lago. As suspeitas iniciais recaíram sobre a poluição da água, especialmente após a tempestade tropical Irene em 2011, ou algum vírus desconhecido. No entanto, o sequenciamento do genoma completo dos tumores e dos tecidos saudáveis dos peixes descartou essas hipóteses e apontou para a transmissão clonal das células cancerígenas.
Não, mas é extremamente raro e este é o primeiro caso confirmado em peixes e em um ambiente de água doce. Antes desta descoberta, apenas três outros tipos de cânceres transmissíveis eram conhecidos no reino animal:
Não. Segundo os pesquisadores e oncologistas envolvidos no debate, não há nenhuma evidência de que esse câncer represente um risco para os seres humanos. O contato ou mesmo a ingestão dos peixes não transmitiria a doença, pois as células seriam destruídas durante o processo de digestão. O lago Memphremagog abastece mais de 175 mil pessoas e a doença parece afetar apenas os bagres.
O mecanismo exato de transmissão ainda está sob investigação. A principal hipótese é que a propagação ocorra durante a época de reprodução, quando os bagres se aglomeram em águas rasas. O contato físico intenso, com mordidas e arranhões, poderia criar portas de entrada para as células cancerígenas liberadas na água por peixes doentes.
A descoberta é importante para a oncologia, pois ajuda a entender como uma célula tumoral consegue sobreviver e se proliferar no corpo de outro indivíduo, burlando seu sistema imunológico. Além disso, tem implicações ecológicas, apresentando um novo tipo de ameaça para a conservação de espécies selvagens, que se transmite sem a necessidade de vírus ou bactérias.
A identificação do primeiro câncer transmissível em peixes de água doce no lago Memphremagog é um marco científico. Embora não represente uma ameaça direta aos humanos, a descoberta abre novas frentes de pesquisa sobre a evolução do câncer, a imunologia e a conservação da vida selvagem, mostrando que o fenômeno pode ser mais comum do que se imaginava.
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