Em 1949, cinco gatos foram levados à Ilha Marion para conter ratos, mas o plano falhou. Entenda o desastre ecológico que agora exige uma operação de R$ 127 milhões.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Uma decisão de 1949 para controlar ratos na Ilha Marion com cinco gatos domésticos resultou em um desastre ecológico que agora exige uma operação de R$ 127 milhões para ser revertido. A introdução dos felinos, que deveriam eliminar roedores, devastou populações de aves marinhas e, após sua própria erradicação, permitiu uma explosão na população de ratos, criando uma crise ainda maior. Atualizado em 5 de agosto de 2026.
A crise começou com a introdução acidental de camundongos domésticos na Ilha Marion, um território subantártico sul-africano, por caçadores de focas no século XIX. Décadas depois, em 1949, funcionários de uma estação meteorológica levaram cinco gatos domésticos — uma fêmea, um macho castrado e três filhotes — para controlar os roedores que infestavam as instalações, conforme detalha o Brasil 247.
O plano ignorou uma característica crucial do ecossistema local: as aves marinhas, como petréis e albatrozes, evoluíram por milhares de anos sem predadores mamíferos terrestres e, por isso, não possuíam defesas naturais, construindo seus ninhos diretamente no solo.
Com presas fáceis e sem predadores, a população de gatos explodiu, ultrapassando 2 mil indivíduos na década de 1970. O impacto foi devastador: estima-se que os felinos matavam cerca de 455 mil aves marinhas por ano, segundo reportagens do Gizmodo e O Globo.
Diante da crise, em 1977, as autoridades iniciaram um complexo programa de erradicação que durou 14 anos. As estratégias incluíram captura, caça noturna e a disseminação do vírus da panleucopenia felina. O último gato foi eliminado em 1991.
Com a remoção de seu único predador, a população de ratos cresceu de forma descontrolada, chegando a um número estimado de até 1 milhão de indivíduos. Os roedores passaram a atacar ovos, filhotes e até aves adultas, um comportamento raro que colocou em risco 19 das 29 espécies de aves que se reproduzem na ilha, de acordo com o projeto Mouse-Free Marion.
As mudanças climáticas agravaram a situação, com invernos mais amenos favorecendo a sobrevivência e reprodução dos camundongos.
Para reverter o cenário, a organização BirdLife South Africa e o governo da África do Sul lançaram o projeto Mouse-Free Marion. A operação, orçada em US$ 25 milhões (cerca de R$ 127 milhões), é considerada uma das maiores do tipo já realizadas. O plano prevê o uso de helicópteros com GPS para distribuir iscas com rodenticida por toda a extensão de 30 mil hectares da ilha.
A operação principal está prevista para o inverno de 2028, com um teste em uma área menor em 2027. O sucesso da missão depende da eliminação total dos roedores, pois mesmo um único casal sobrevivente poderia recolonizar a ilha em poucos anos.
Os gatos encontraram um ambiente sem predadores naturais e com abundância de presas fáceis. As aves marinhas locais evoluíram sem a presença de mamíferos caçadores e não tinham defesas, fazendo ninhos no solo, o que as tornou extremamente vulneráveis.
O projeto Mouse-Free Marion usará helicópteros para espalhar toneladas de iscas com rodenticida por toda a ilha durante o inverno, quando a atividade das aves é menor. O objetivo é erradicar 100% da população de ratos.
A operação está orçada em US$ 25 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 127 milhões. O financiamento vem do governo sul-africano e de doações internacionais.
A história da Ilha Marion serve como um exemplo clássico dos perigos de introduzir espécies não nativas em ecossistemas isolados. Uma solução que parecia simples em 1949 gerou uma cascata de consequências que, décadas depois, exige um esforço monumental e caro para tentar restaurar o equilíbrio ambiental.
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