Uma técnica de geoengenharia testada no Canadá conseguiu engrossar o gelo do Ártico em até 32 cm. Entenda como o método funciona e os desafios.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Cientistas conseguiram engrossar o gelo marinho do Ártico em um experimento que bombeia água do mar para a superfície congelada durante o inverno. Atualizado em 22 de junho de 2026. Em testes realizados em Cambridge Bay, no Canadá, a técnica aumentou a espessura do gelo em até 32 centímetros nas áreas tratadas, mostrando-se uma ferramenta promissora, mas que ainda enfrenta grandes desafios de escala e divide a comunidade científica.
O método, liderado por pesquisadores do Centro de Reparação Climática da Universidade de Cambridge e pela empresa Real Ice, consiste em perfurar um buraco no gelo marinho e usar bombas submersíveis para espalhar a água do oceano sobre a superfície. De acordo com reportagens da BBC, a equipe bombeou cerca de 1.000 litros de água por minuto. Exposta ao ar extremamente frio do inverno ártico, com sensações térmicas que podem chegar a -45ºC, a água salgada congela rapidamente, formando uma nova camada de gelo.
Além de adicionar uma camada superior, o processo compacta a neve que cobre o gelo. Como a neve funciona como um isolante térmico, sua compactação permite que o gelo também se forme mais facilmente na parte inferior, em contato com o oceano, conforme explicado por especialistas.
O experimento, conduzido entre o inverno de 2024 e 2025, foi o primeiro a avaliar a técnica em condições reais durante uma estação completa. As medições ao final do período revelaram que as áreas tratadas ficaram até 32 centímetros mais espessas que as áreas de controle. Testes mais recentes, ainda não publicados, apontam ganhos de até 50 centímetros, segundo o Olhar Digital. O gelo mais espesso também se mostrou mais reflexivo à luz solar e derreteu mais lentamente durante o verão.
Apesar do sucesso em escala local, a aplicação da técnica em todo o Ártico é vista com ceticismo por muitos cientistas. A principal barreira é a logística e a viabilidade financeira.
Expandir o projeto para uma área significativa do Ártico seria um desafio monumental. Uma estimativa citada pelo G1 e pela Folha de S.Paulo sugere que seriam necessárias cerca de 10 milhões de bombas movidas a energia eólica para engrossar o gelo em apenas um décimo da região. Martin Siegert, glaciologista da Universidade de Exeter, classificou a ideia de aplicar isso em todo o Oceano Ártico como "loucura".
Críticos da geoengenharia alertam para consequências não intencionais. Lili Fuhr, do Centro de Direito Ambiental Internacional, explica que bombear água do mar em grande escala pode "alterar a química dos oceanos e ameaçar a frágil teia da vida" no Ártico. Outra preocupação central é que tais projetos possam desviar o foco da medida mais urgente: a redução drástica das emissões de gases de efeito estufa, que são a causa raiz do aquecimento global.
Geoengenharia é a intervenção deliberada e em larga escala no sistema climático da Terra para tentar neutralizar os danos causados pela ação humana. As técnicas variam desde plantar árvores e capturar carbono até métodos mais experimentais, como refletir a luz solar de volta ao espaço.
Não. Os próprios pesquisadores envolvidos, como Shaun Fitzgerald, enfatizam que o método não é uma solução definitiva para as mudanças climáticas. Ele é estudado como uma forma de mitigar um dos sintomas do aquecimento — a perda de gelo —, mas não resolve a causa fundamental. A comunidade científica concorda que a principal e única solução de longo prazo é a descarbonização da economia.
A técnica de bombear água salgada para engrossar o gelo do Ártico demonstrou funcionar em testes controlados, oferecendo uma nova ferramenta potencial para retardar o derretimento. No entanto, os enormes desafios logísticos, os custos e os riscos ambientais geram um intenso debate sobre sua viabilidade e segurança. A maioria dos especialistas concorda que, embora a inovação seja importante, a prioridade absoluta continua sendo a redução das emissões de combustíveis fósseis para combater a crise climática em sua origem.
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