Saiba como a antiga União Soviética secou o quarto maior lago do mundo para plantar algodão e como o Uzbequistão tenta mitigar o desastre com arbustos saxaul.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Onde antes existia o quarto maior lago do mundo, hoje há um deserto tóxico. A história do Mar de Aral é um dos maiores desastres ambientais provocados pela ação humana, mas uma nova iniciativa no Uzbequistão busca mitigar a tragédia. Atualizado em 22 de junho de 2026, o governo local já cobriu 1,7 milhão de hectares do antigo leito do mar com arbustos resistentes para conter o avanço do sal e da poeira.
Na década de 1960, a União Soviética iniciou um ambicioso projeto para transformar a Ásia Central em uma potência mundial na produção de algodão. Para isso, desviou massivamente a água dos rios Amu Daria e Sir Daria, que por milênios alimentaram o Mar de Aral, para irrigar as novas lavouras, conforme relatam múltiplos veículos. Sem a reposição de água doce, a evaporação superou a entrada, e o lago começou a encolher drasticamente.
Em poucas décadas, o Mar de Aral perdeu mais de 90% de sua superfície original de 68 mil quilômetros quadrados. O que restou foi o deserto de Aralkum, uma vasta planície de areia, sal e resíduos químicos acumulados de décadas de agricultura, como pesticidas e fertilizantes.
O desaparecimento do lago gerou um efeito cascata devastador. A indústria pesqueira, que empregava dezenas de milhares de pessoas, colapsou completamente, deixando cidades portuárias, como Muynak, a dezenas de quilômetros da nova linha costeira. Famosas imagens mostram barcos de pesca enferrujando em meio à areia.
Além do impacto econômico, o desastre alterou o clima regional, tornando os verões mais quentes e os invernos mais frios. O leito exposto do lago se tornou fonte de tempestades de poeira e sal tóxico, que são transportadas pelo vento por longas distâncias, prejudicando a qualidade do ar, a saúde da população e a produtividade de terras agrícolas vizinhas.
A recuperação do Mar de Aral em sua forma original é considerada inviável, especialmente na porção sul, no Uzbequistão. A estratégia atual não é trazer a água de volta, mas conter os danos. O governo uzbeque iniciou um projeto massivo para cobrir 1,7 milhão de hectares do deserto de Aralkum com o plantio de saxaul (Haloxylon), um arbusto nativo da Ásia Central.
O saxaul é extremamente resistente a solos salinos, seca e calor extremo, sobrevivendo a temperaturas acima de 42°C. Sua função é ecológica e pragmática:
Pesquisadores, com apoio de fundos japoneses e da Universidade de Kioto, aprimoraram as técnicas de plantio. A substituição da semeadura direta por mudas cultivadas em recipientes elevou a taxa de sobrevivência de cerca de 20% para até 78% em áreas piloto.
Não em sua totalidade. Enquanto o Uzbequistão foca em conter o deserto, o Cazaquistão obteve sucesso parcial na porção norte do lago. A construção da Barragem de Kokaral em 2005 permitiu que o nível do chamado "Pequeno Aral" subisse, recuperando parte do ecossistema e da atividade pesqueira local.
Antes da década de 1960, o Mar de Aral cobria aproximadamente 68 mil quilômetros quadrados, sendo o quarto maior lago interior do planeta, localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão.
A história do Mar de Aral serve como um alerta sobre as consequências de projetos de desenvolvimento que ignoram o equilíbrio hídrico e ambiental. Embora a tragédia seja, em grande parte, irreversível, as iniciativas de plantio no Uzbequistão demonstram um esforço pragmático para mitigar os danos, transformando um leito de mar tóxico em uma paisagem estabilizada e devolvendo um mínimo de vida a um deserto criado pelo homem.
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