Um lixão com 60 mil toneladas de roupas descartadas no Deserto do Atacama, Chile, cresceu tanto que já aparece em imagens de satélite. Entenda a origem do problema.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Uma montanha com mais de 60 mil toneladas de roupas descartadas no Deserto do Atacama, no norte do Chile, cresceu a ponto de se tornar visível em imagens de satélite, transformando a paisagem em um símbolo da crise ambiental gerada pela indústria da moda rápida. Atualizado em 26 de setembro de 2026.
O aterro têxtil, localizado próximo à cidade de Alto Hospicio, é formado por peças que viajaram milhares de quilômetros, principalmente da Europa, Estados Unidos e Ásia. O volume é tão grande que o aplicativo SkyFi permite visualizar a mancha de resíduos do espaço, conforme noticiado por diversos veículos.
A principal origem das peças é o mercado de segunda mão que não consegue absorver o volume de doações. Segundo um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2024, a União Europeia é a maior exportadora mundial de roupas descartadas, respondendo por 30% do total. O Reino Unido (16%) e os Estados Unidos (15%) vêm em seguida.
Dados do Parlamento Europeu indicam que cada residente do bloco compra, em média, 26 quilos de têxteis por ano e descarta cerca de 11 quilos. Esse excedente, impulsionado pelo modelo de fast fashion, é exportado para outras regiões do mundo.
O processo logístico que transforma roupas usadas em um lixão no deserto envolve várias etapas:
O acúmulo de têxteis no Atacama é classificado pela ONU como uma "emergência ambiental e social". Grande parte das roupas é feita com fibras sintéticas derivadas do petróleo, que não se decompõem e liberam microplásticos no solo. Além disso, incêndios frequentes no local liberam fumaça tóxica, comprometendo a qualidade do ar e a saúde dos moradores de Alto Hospicio.
"Temos a sensação de que nossa terra foi sacrificada. Somos o lixo do mundo", afirmou o prefeito de Alto Hospício, Patrício Ferreira, em declaração à agência AFP. A situação levou a justiça chilena a intervir, ordenando a elaboração de um plano de remediação ambiental, embora a decisão ainda esteja em recurso.
Sim, mas é importante esclarecer o contexto. A mancha formada pelo depósito de roupas é grande o suficiente para ser identificada em imagens de satélite de alta resolução, como as disponibilizadas pelo aplicativo SkyFi. Isso não significa que peças individuais possam ser vistas, mas que a área total do descarte se destaca na paisagem do deserto.
Investigações realizadas pela ONG Ekō e pelo coletivo chileno Desierto Vestido identificaram roupas de diversas marcas internacionais, incluindo Zara, H&M, Adidas, Nike, Levi’s, Tommy Hilfiger e Hugo Boss. Muitas peças ainda possuíam as etiquetas originais, indicando que nunca foram vendidas.
O Primeiro Tribunal Ambiental de Antofagasta responsabilizou o Estado chileno por omissão e determinou a criação de um plano de recuperação ambiental de dez anos. Além disso, o governo chileno estuda medidas para responsabilizar os importadores pelos resíduos. Enquanto isso, algumas iniciativas locais tentam reaproveitar o material descartado.
A montanha de roupas no Atacama é um retrato visível do consumo excessivo e do descarte irresponsável da indústria da moda global. O problema, que começa em guarda-roupas a milhares de quilômetros de distância, termina como uma crise ambiental e social para as comunidades do norte do Chile, evidenciando a necessidade urgente de repensar toda a cadeia produtiva e de consumo têxtil.
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