A onça-pintada Gaspar percorreu uma distância inédita de 2.122 km, cruzando a Amazônia e o Cerrado. Entenda o que a viagem revela sobre os desafios para a conservação.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Uma onça-pintada macho chamada Gaspar realizou uma jornada sem precedentes de 2.122 quilômetros, quase em linha reta, ao longo da fronteira entre a Amazônia e o Cerrado. O deslocamento, monitorado por pesquisadores do Instituto Onça-Pintada, é o mais longo já registrado para a espécie e revela tanto a capacidade de adaptação do felino quanto as fragilidades dos corredores ecológicos no Brasil. Atualizado em 29 de julho de 2026.
Gaspar, um macho adulto de oito anos e 94 kg, foi equipado com uma coleira de monitoramento por GPS em 11 de novembro de 2024, na região do Rio Araguaia, em Mato Grosso. Após permanecer em seu território por cerca de três meses, ele iniciou uma viagem contínua que durou mais de um ano, até o colar parar de transmitir em 27 de novembro de 2025, conforme relatado em estudo publicado na revista Ecology.
A distância percorrida em linha reta foi de 2.122 km, um número que supera drasticamente os recordes anteriores de deslocamento para onças-pintadas, que ficavam entre 60 e 100 quilômetros. Segundo o biólogo Leandro Silveira, do Instituto Onça-Pintada, "na ciência, não existe registro de nenhum animal que tenha andado essa distância em tão pouco tempo".
O comportamento de Gaspar é considerado atípico para um animal de sua idade e porte, que normalmente já estaria estabilizado em seu território. A principal hipótese dos pesquisadores é que a chegada de outro macho dominante à sua área de origem o tenha forçado a buscar um novo lar. Essa busca, no entanto, não foi para uma área adjacente.
"Ele simplesmente começou a viajar quase em linha reta", afirmou Silveira. Outras possibilidades levantadas por especialistas incluem a busca por melhores fontes de alimento ou oportunidades de acasalamento.
Durante seu trajeto pelos estados de Mato Grosso, Tocantins e Goiás, Gaspar atravessou diversas paisagens modificadas pela ação humana, como fazendas, rodovias e plantações. O monitoramento revelou que ele utilizou principalmente as áreas de reserva legal e Áreas de Preservação Permanente (APPs) dentro de propriedades rurais para se locomover com segurança.
Este padrão de movimento reforça a importância do cumprimento do Código Florestal para a conservação de grandes felinos. "Logo percebemos que elas dependem das reservas legais das fazendas para se deslocarem", explicou Silveira, destacando como esses corredores são vitais para a conectividade entre habitats.
A onça Gaspar percorreu 2.122 quilômetros em uma medição em linha reta, conforme monitoramento por GPS. A distância real percorrida no solo é provavelmente muito maior.
Gaspar viajou pela divisa entre a Amazônia e o Cerrado, atravessando os estados de Mato Grosso, Tocantins e Goiás, utilizando principalmente áreas de vegetação preservada em propriedades rurais.
O paradeiro de Gaspar é incerto. O colar de GPS parou de transmitir em 27 de novembro de 2025. Ele pode ter sido vítima de caça ilegal, ou o equipamento pode simplesmente ter falhado, o que significa que ele pode continuar sua jornada.
A épica viagem de Gaspar oferece dados valiosos sobre o comportamento das onças-pintadas em paisagens fragmentadas. Sua jornada sublinha a necessidade urgente de repensar a organização de áreas protegidas e garantir a funcionalidade dos corredores ecológicos, que são essenciais para a sobrevivência de espécies de grande porte diante da expansão agrícola e urbana.
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