Milhões de aves são retiradas da natureza para torneios lucrativos na Indonésia, levando espécies à beira da extinção. Entenda o impacto na biodiversidade.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Atualizado em 19 de julho de 2026. Uma tradição cultural de competições de canto de pássaros no Sudeste Asiático, especialmente na Indonésia, transformou-se em uma das maiores ameaças à biodiversidade local. Milhões de aves são retiradas da natureza anualmente para abastecer um mercado bilionário de animais de estimação e torneios que oferecem prêmios como carros e quantias em dinheiro equivalentes a anos de salário, acelerando a caça ilegal a um ponto crítico.
As competições de canto fazem parte da cultura indonésia há décadas, reunindo centenas de criadores que colocam suas aves para serem avaliadas em critérios como potência vocal, repertório e presença de palco. Segundo o biólogo acústico Benjamin Mirin, da Universidade Cornell, esses eventos são tão populares e lucrativos que estão "acelerando a caça ilegal de pássaros a tal ponto que as florestas estão ficando silenciosas".
A crença de que aves capturadas na natureza possuem um canto superior às criadas em cativeiro mantém a demanda em alta. O prestígio de vencer um torneio eleva o valor comercial da ave, com exemplares campeões podendo valer o equivalente a mais de cinco vezes o salário mensal médio no país, conforme aponta a National Geographic.
A Indonésia, que abriga cerca de 1.800 espécies de aves, vê uma em cada cinco delas à venda em mercados de animais, incluindo espécies protegidas e endêmicas. A situação é alarmante para o mainá-de-asas-pretas (Acridotheres melanopterus) e a pega-verde-de-java, com menos de 250 e 100 indivíduos na natureza, respectivamente.
Estimativas indicam que até 30% dos indonésios mantêm entre 164 milhões e 187 milhões de pássaros canoros capturados. A dimensão da crise levou o biólogo Alexander Lees a afirmar na revista Current Biology que "pode haver mais pássaros atrás das grades do que na natureza".
O desaparecimento dessas aves transcende a perda de espécies. Pássaros canoros são essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas, atuando como dispersores de sementes, polinizadores e controladores de populações de insetos. Sem eles, a floresta pode sofrer alterações profundas.
"Se nada for feito, podemos vivenciar a síndrome da floresta vazia", alerta Alexander Lees. O termo descreve um ambiente que parece preservado, mas está desprovido de sua fauna, comprometendo todo o seu funcionamento ecológico.
O comércio de aves canoras na Indonésia é um dos mais prolíficos do mundo. Estima-se que até 90 milhões de pessoas no país mantenham entre 164 e 187 milhões de pássaros capturados na natureza, apenas na ilha de Java são entre 66 e 84 milhões de aves engaioladas.
Entre as espécies mais cobiçadas estão o shama-de-rabadilha-branca, tordos-de-cabeça-laranja e rouxinóis-orientais. Os casos mais críticos são o mainá-de-asas-pretas e a pega-verde-de-java, ambos com populações selvagens extremamente reduzidas.
Sim, o Brasil também enfrenta o tráfico de aves canoras para competições de canto. Espécies como o bicudo (Sporophila maximiliani) e o curió (Sporophila angolensis) são alvos constantes. Em resposta, a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (Cites) restringiu a comercialização internacional dessas e de outras quatro espécies para evitar a "lavagem" de animais capturados ilegalmente.
A crise das aves canoras no Sudeste Asiático evidencia como uma prática cultural pode se tornar uma grave ameaça ambiental quando impulsionada por incentivos financeiros. Especialistas apontam que, além da fiscalização, a solução passa por mudar a percepção pública e reduzir a demanda por aves selvagens, um desafio complexo diante da forte influência política dos grupos de criadores.
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