Cientistas despejaram 62 mil litros de soda cáustica no oceano em um experimento inédito. Entenda por que a técnica busca combater a acidificação marinha.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Cientistas do Instituto Oceanográfico Woods Hole (WHOI) despejaram cerca de 62.500 litros de uma solução de hidróxido de sódio, conhecida como soda cáustica, no Golfo do Maine, nos Estados Unidos. Atualizado em 31 de julho de 2026, o experimento, realizado em agosto de 2025, foi o primeiro do tipo autorizado pelo governo americano e buscou testar se a técnica de "aumento da alcalinidade oceânica" pode ampliar a capacidade do mar de absorver dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera e, assim, combater a acidificação.
A acidificação dos oceanos é um efeito direto do aumento de CO₂ na atmosfera. Cerca de 25% a 30% do dióxido de carbono gerado por atividades humanas é absorvido pelos mares, formando ácido carbônico e tornando a água mais ácida, conforme relatado em estudos sobre o tema. Esse processo prejudica organismos marinhos como corais, moluscos e plâncton, que precisam de carbonato de cálcio para formar suas conchas e esqueletos.
A adição de uma substância alcalina como a soda cáustica (hidróxido de sódio) visa neutralizar essa acidez. O princípio químico é que, em um ambiente mais alcalino, o CO₂ dissolvido na água se transforma em bicarbonato, uma forma química estável que pode permanecer no oceano por milhares de anos. Segundo os pesquisadores, isso não só aumenta a capacidade de armazenamento de carbono do oceano, mas também alivia os efeitos da acidificação.
O projeto, chamado LOC-NESS, liberou gradualmente a solução diluída de hidróxido de sódio a 61 quilômetros da costa. Para rastrear a dispersão da substância, os cientistas adicionaram um corante rosa não tóxico, chamado Rhodamine Water Tracer, que permitiu o monitoramento por navios, drones, boias e satélites. Durante cinco dias, equipes registraram mudanças em parâmetros como pH, alcalinidade e concentração de CO₂.
A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) autorizou o teste após concluir que, devido à sua escala limitada, não eram esperados impactos significativos nos ecossistemas marinhos. Ainda assim, a iniciativa gerou preocupação em organizações ambientais, que questionaram os riscos de injetar grandes quantidades de substâncias cáusticas no mar.
Os resultados iniciais, divulgados em fevereiro de 2026, indicaram que o experimento foi bem-sucedido do ponto de vista técnico: a dispersão da alcalinidade pôde ser controlada e monitorada com precisão. A análise da água confirmou que a reação química para aumentar a alcalinidade ocorreu como o esperado.
Em relação ao impacto biológico, a equipe não detectou diferenças significativas nas populações de bactérias, fitoplâncton, zooplâncton e larvas de peixes entre a área tratada e as zonas de controle. No entanto, os cientistas ressaltam que a ausência de efeitos em um teste pequeno e de curta duração não garante que a técnica seja segura ou eficaz em larga escala. O estudo não avaliou impactos em peixes adultos ou mamíferos marinhos.
A cor rosa não foi causada pela soda cáustica. Os pesquisadores adicionaram deliberadamente um corante chamado Rhodamine Water Tracer, usado há décadas em estudos oceanográficos para seguir o movimento da água. Isso permitiu que a equipe rastreasse a pluma de substância tratada enquanto ela se dispersava.
Não. Os próprios pesquisadores, incluindo o líder do projeto Adam Subhas, enfatizam que o aumento da alcalinidade oceânica não substitui a necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A técnica é vista como uma possível ferramenta complementar para remover carbono da atmosfera, mas sua viabilidade, custo e impactos ecológicos em grande escala ainda são desconhecidos.
O experimento no Golfo do Maine representa um passo importante para entender o potencial e os riscos da geoengenharia marinha como ferramenta climática. Embora os resultados técnicos sejam promissores, os cientistas alertam que ainda há um longo caminho de pesquisa antes que o aumento da alcalinidade oceânica possa ser considerado uma solução segura e aplicável em larga escala. A prioridade, segundo o consenso científico, continua sendo a redução drástica das emissões de combustíveis fósseis.
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