A bióloga Tatiana Sampaio, criadora da polilaminina para lesão medular, gera polêmica ao apresentar dados de uso compassivo como prova e questionar o método científico. Entenda o debate que divide especialistas.
Olyvio Marques
Editor · Saúde · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
A polilaminina, uma molécula desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com potencial para tratar lesões medulares, está no centro de um intenso debate. A controvérsia, no entanto, não gira em torno da substância em si, mas da postura de sua criadora, a bióloga Tatiana Sampaio, que tem questionado publicamente a necessidade de seguir etapas rigorosas do método científico para comprovar sua eficácia. Atualizado em 11 de agosto de 2026.
A comunidade científica critica a pesquisadora por defender a eficácia da polilaminina com base em dados considerados preliminares e metodologicamente inadequados, enquanto desdenha de protocolos estabelecidos, como os estudos de fase 1, 2 e 3, essenciais para aprovação de qualquer novo medicamento.
Um dos pontos mais criticados é a sugestão de Sampaio de que as próximas fases do estudo poderiam dispensar um "grupo controle" — um grupo de comparação que não recebe o tratamento experimental. Segundo especialistas, sem esse grupo é impossível saber se uma melhora se deve ao medicamento ou a outros fatores, como recuperação espontânea ou fisioterapia, conforme aponta o médico Luís Fernando Correia em artigo no Estadão. Em uma palestra na Rio Innovation Week, Sampaio chegou a questionar a utilidade de um novo estudo de segurança aprovado pela Anvisa, afirmando: "Para que isso? Acho que temos de seguir os ritos da ciência quando é necessário, mas não quando não é".
Sampaio apresentou dados de 105 pacientes que receberam a substância por "uso compassivo", um mecanismo legal que permite acesso a tratamentos experimentais em casos graves sem alternativas. Ela destacou que, de um subgrupo de 17 pacientes, oito teriam registrado alguma melhora. No entanto, especialistas alertam que esses dados não podem ser usados para comprovar eficácia, pois não fazem parte de um protocolo de pesquisa, os pacientes são muito diferentes entre si e não há um grupo de comparação, o que torna impossível atribuir os resultados diretamente à polilaminina.
O estudo piloto da polilaminina, divulgado como um pré-print (versão sem revisão por outros cientistas), continha falhas admitidas pela própria pesquisadora. Entre os problemas, estava um erro de digitação em um gráfico que atribuía dados de acompanhamento de 400 dias a um paciente que, na verdade, havia morrido cinco dias após o procedimento. Sampaio afirmou que prepara uma nova versão do artigo com correções, mas negou que as mudanças sejam uma resposta às críticas da comunidade científica.
A polêmica central não é sobre a molécula em si, mas sobre a metodologia defendida por sua criadora, Tatiana Sampaio. Ela apresenta resultados de uso compassivo e de um estudo piloto com falhas como prova de eficácia, enquanto questiona a necessidade de seguir os protocolos científicos padrão, como testes com grupo controle, que são considerados essenciais para validar um novo tratamento.
Um grupo controle é um conjunto de participantes de uma pesquisa que não recebe o tratamento experimental. Ele serve como base de comparação para determinar se os efeitos observados no grupo tratado são realmente causados pela intervenção ou se ocorreriam de qualquer forma (por recuperação espontânea, efeito placebo, etc.). É uma peça fundamental do método científico para evitar conclusões equivocadas.
Não. A polilaminina não passou por todas as fases de testes clínicos exigidas para aprovação e registro. A Anvisa autorizou o início de um estudo de fase 1, focado em segurança, mas as fases 2 e 3, que buscam comprovar a eficácia em grupos maiores de pacientes, ainda não foram realizadas.
O caso da polilaminina ilustra um conflito fundamental: a urgência de pacientes por uma cura contra a necessidade de um rigor metodológico que garanta a segurança e a eficácia de um novo tratamento. A comunidade científica reforça que, por mais promissora que uma hipótese pareça, abandonar o método científico não é um atalho, mas um risco que pode transformar ciência em uma questão de fé. Como resumiu o colunista do Estadão, "ciência sem método é só opinião de jaleco".
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