Em 1946, 20 castores foram soltos na Argentina para uma indústria de peles que fracassou. Hoje, mais de 100 mil animais devastam a Terra do Fogo. Entenda a escala do desastre ecológico.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Em 1946, uma decisão do governo argentino de introduzir 20 castores canadenses na Terra do Fogo para fomentar uma indústria de peles deu início a um dos maiores desastres ecológicos da Patagônia. Atualizado em 22 de junho de 2026, o que era um plano econômico fracassado resultou em uma população de mais de 100 mil castores que, sem predadores naturais, transformaram a paisagem com mais de 200 mil barragens, causando o que especialistas chamam de "a maior alteração paisagística desde a glaciação".
A ideia, concebida pela Secretaria da Marinha da Argentina em 1945, era simples: aproveitar o clima frio e as florestas da Terra do Fogo para criar um polo na indústria de peles. Em novembro de 1946, 20 castores (Castor canadensis) foram soltos perto do Lago Fagnano com o objetivo de "enriquecer a fauna local", conforme noticiado na época. No entanto, o negócio de peles nunca prosperou, e os animais foram deixados para se reproduzir sem controle.
Na América do Norte, os castores convivem com predadores como lobos e ursos, que mantêm suas populações em equilíbrio. Na Terra do Fogo, a ausência desses predadores, somada à abundância de rios e árvores, criou um ambiente perfeito para a proliferação. Em poucas décadas, os 20 indivíduos originais se multiplicaram para uma população estimada em mais de 100 mil, colonizando quase todas as bacias hidrográficas do arquipélago e cruzando a fronteira para o Chile.
Os castores são conhecidos como "engenheiros de ecossistemas" por sua capacidade de construir diques que represam rios. Um levantamento aéreo identificou mais de 206 mil dessas estruturas na Terra do Fogo. O problema é que as árvores nativas da região, como lenga, guindo e ñire, não evoluíram para resistir a inundações prolongadas e morrem quando suas raízes ficam submersas. O resultado é a criação de "florestas fantasmas", com troncos brancos e mortos onde antes havia mata densa.
A ação dos castores causa uma série de impactos negativos:
Estimativas oficiais indicam que a população de castores na Terra do Fogo ultrapassa os 100.000 indivíduos, descendentes dos 20 animais soltos em 1946.
Diferente das árvores norte-americanas, as espécies da Patagônia não são adaptadas para sobreviver a longos períodos de inundação causados pelas barragens. Mesmo após o abandono de um dique, a regeneração da floresta pode levar séculos.
Sim, Argentina e Chile possuem um acordo binacional para controlar e erradicar a espécie. Um projeto-piloto demonstrou que a erradicação é tecnicamente viável, mas o plano enfrenta desafios de financiamento e vontade política para ser implementado em larga escala.
O caso dos castores na Terra do Fogo é um exemplo emblemático de como a introdução de uma espécie exótica, mesmo com boas intenções econômicas, pode resultar em consequências ecológicas catastróficas e duradouras. Quase 80 anos depois, o legado dos 20 castores é uma paisagem transformada e um desafio de restauração ambiental que pode levar décadas.
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