Após mais de 60 anos sem registros vivos, a jiboia-do-Ribeira (Corallus cropanii) é redescoberta no Vale do Ribeira, SP. Saiba como a ciência cidadã permitiu o estudo.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Biólogos e pesquisadores estão conseguindo estudar a jiboia mais rara do mundo, a Corallus cropanii, graças ao sucesso de um projeto de conservação e educação ambiental no Vale do Ribeira, em São Paulo. Atualizado em 25 de setembro de 2026, o Projeto Jiboia do Ribeira (PJR) transformou o cenário da espécie: de apenas seis indivíduos mortos encontrados entre 1953 e 2016, para mais de 20 novos registros vivos desde o início das ações, permitindo pela primeira vez o estudo de seus hábitos e biologia.
A virada na história da jiboia-do-Ribeira, endêmica da Mata Atlântica na região, começou em 2016. O Projeto Jiboia do Ribeira, cofundado pelos biólogos Bruno Rocha e Daniela Gennari, apostou na parceria com as comunidades locais, como a de Guapiruvu, em Sete Barras. Em vez de expedições científicas tradicionais, que falharam por décadas, o projeto focou em educar os moradores para identificar e proteger a serpente, que antes era confundida com a venenosa jararacuçu e morta por medo.
O resultado veio rápido. Em janeiro de 2017, moradores encontraram o primeiro exemplar vivo em mais de 60 anos, uma fêmea de 1,75 metro batizada de "Dona Crô". Desde então, a colaboração da comunidade foi essencial para localizar outros indivíduos, incluindo "Esperança", "Ribeiro", "Juquiá" e, mais recentemente, o primeiro filhote vivo já registrado, com 80 centímetros.
Graças aos indivíduos monitorados com rádio-transmissores, os cientistas começaram a desvendar os mistérios da espécie. Sabe-se agora que a jiboia-do-Ribeira é uma serpente não peçonhenta de hábitos arborícolas, passando a maior parte do tempo no topo de árvores e se movendo lentamente.
Apesar do sucesso, o projeto enfrenta desafios significativos, principalmente a falta de recursos financeiros, com os pesquisadores frequentemente custeando as atividades do próprio bolso. A iniciativa, que agora integra a ONG Instituto Conservação Brasil, busca expandir suas ações para todos os municípios do Vale do Ribeira.
O objetivo é tornar a jiboia-do-Ribeira uma "espécie-símbolo" da região. Por ser um predador de topo, sua preservação ajuda a manter o ecossistema saudável, garantindo a conservação de diversas outras espécies da Mata Atlântica, uma área pressionada pelo desmatamento e expansão agrícola.
A raridade da Corallus cropanii se deve a uma combinação de fatores: ela é endêmica de uma área restrita do Vale do Ribeira, possui hábitos arborícolas que a tornam difícil de ser avistada e, historicamente, foram mais de 60 anos sem o registro de um único indivíduo vivo pela ciência.
Não, a jiboia-do-Ribeira não é peçonhenta. Ela é frequentemente confundida com a jararacuçu, que é venenosa, mas pode ser diferenciada pelas fossetas labiais (pequenos orifícios na boca), ausentes na jararacuçu.
O projeto foi fundamental para a redescoberta da espécie. Antes de 2016, apenas seis espécimes mortos haviam sido encontrados em 63 anos. Com a educação ambiental e o engajamento da comunidade, mais de 20 novos registros de animais vivos foram feitos, viabilizando os primeiros estudos sobre o comportamento e a biologia da jiboia.
A história da jiboia-do-Ribeira é um exemplo poderoso de como a ciência cidadã pode ser decisiva para a conservação de espécies ameaçadas. A parceria entre pesquisadores e a comunidade local não apenas salvou a serpente mais rara do mundo do esquecimento, mas também abriu um novo capítulo de conhecimento científico, reforçando a importância de preservar os remanescentes da Mata Atlântica.
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