Registro inédito na Serra da Canastra mostra lobo-guará se alimentando de uma das serpentes mais venenosas do Brasil. Entenda o que a cena revela.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Um registro fotográfico pode ser o primeiro a documentar um lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) se alimentando de uma serpente urutu-cruzeiro (Bothrops alternatus). Atualizado em 20 de outubro de 2026. O flagrante foi feito em setembro pelo fotógrafo de natureza Alessandro Abdala na região da Serra da Canastra, em Sacramento (MG).
As imagens mostram o maior canídeo da América do Sul com a cobra peçonhenta na boca, já parcialmente consumida. Segundo especialistas, o registro é relevante para ampliar o conhecimento sobre a dieta da espécie, que é considerada "Vulnerável" à extinção.
O fotógrafo Alessandro Abdala acompanhava um casal de turistas quando avistou o lobo-guará em meio à vegetação do Cerrado. "Inicialmente, o animal parecia estar procurando alguma coisa entre as gramíneas, com a cabeça abaixada. Em determinado momento, quando levantou a cabeça, percebi que carregava uma serpente na boca", relatou Abdala ao portal G1. Ele conseguiu fotografar a cena até o lobo engolir a presa por inteiro.
A identificação da serpente como uma urutu-cruzeiro foi feita com base nas características visíveis nas fotografias. O registro está em processo de documentação para se tornar uma nota científica, com a colaboração de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Embora a cena mostre o consumo, não é possível afirmar que o lobo-guará caçou e matou a serpente. O herpetólogo Willianilson Pessoa, em entrevista ao G1, considera mais provável que o animal tenha encontrado a cobra já morta ou abandonada por outro predador.
A urutu-cruzeiro é uma serpente do gênero Bothrops, o mesmo das jararacas, e possui uma peçonha potente. Segundo Pessoa, mesmo morta, a cobra representa um risco. "Mesmo que a serpente já esteja morta, o lobo-guará pode correr risco ao comê-la, caso as presas inoculadoras perfurem seus tecidos", alertou o especialista.
O lobo-guará é uma espécie onívora e oportunista. Sua dieta é variada, com cerca de 50% composta por frutos, como a fruta-do-lobo, o que lhe confere o papel de importante dispersor de sementes. Além disso, consome pequenos mamíferos, aves, insetos e répteis.
Embora o consumo de serpentes já fosse conhecido, não havia publicações científicas que identificassem especificamente a urutu-cruzeiro como parte de sua alimentação, o que torna o flagrante de Abdala potencialmente inédito. Recentemente, outros registros também ampliaram o conhecimento sobre seus hábitos, como a primeira documentação de um lobo-guará predando uma ema, a maior ave das Américas.
O lobo-guará é onívoro, alimentando-se de uma grande variedade de itens. Sua dieta inclui frutos (especialmente a lobeira), pequenos mamíferos, aves, insetos, répteis e, como mostram registros recentes, presas maiores como a ema.
Não é possível afirmar que houve caça. Especialistas acreditam que o lobo provavelmente encontrou a urutu-cruzeiro já morta. O consumo de serpentes faz parte de sua dieta oportunista, mas o contato com as presas de uma cobra peçonhenta é arriscado mesmo após a morte do animal.
O flagrante ocorreu no município de Sacramento, em Minas Gerais, em uma área do Cerrado na região do Parque Nacional da Serra da Canastra.
O registro do lobo-guará consumindo uma urutu-cruzeiro na Serra da Canastra é um exemplo notável de como a observação da natureza pode gerar conhecimento científico valioso. A cena reforça o comportamento alimentar oportunista da espécie e pode adicionar uma nova presa à lista documentada de sua dieta, aguardando a confirmação da comunidade científica. Este tipo de flagrante é crucial para entender melhor as interações ecológicas e para a conservação do lobo-guará, um animal símbolo do Cerrado brasileiro.
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