Pesquisa da Unimontes encontra o mexilhão-dourado no Norte de Minas, a mil quilômetros do registro anterior. Saiba os riscos para hidrelétricas e o meio ambiente.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) confirmaram a presença do mexilhão-dourado no Rio São Francisco, no Norte de Minas Gerais, a cerca de mil quilômetros do registro anterior na bacia. A descoberta, publicada na revista científica CheckList, acende um alerta sobre os riscos ambientais e econômicos da espécie invasora. Atualizado em 23 de outubro de 2026.
Um estudo de campo realizado entre julho de 2024 e abril de 2025 identificou 113 exemplares do molusco invasor (Limnoperna fortunei) em pontos dos municípios de São Francisco e São Romão. Segundo a pesquisa, a espécie foi encontrada em todas as estações de coleta em São Francisco e em uma estação em São Romão.
O que chamou a atenção dos cientistas foi a ausência do mexilhão em áreas mais a montante (rio acima), como nos municípios de Ibiaí, Pirapora e no reservatório da Usina Hidrelétrica de Três Marias, onde também foram feitas coletas. O registro anterior na bacia do São Francisco datava de 2016-2017, na região da barragem de Sobradinho, entre Bahia e Pernambuco.
Originário da Ásia, o mexilhão-dourado é considerado uma das espécies invasoras mais preocupantes na América do Sul. Sua alta capacidade de reprodução e a falta de predadores naturais no Brasil permitem que ele forme colônias densas em qualquer superfície submersa, gerando graves impactos econômicos e ambientais.
A principal ameaça econômica está na capacidade do molusco de obstruir tubulações e sistemas de resfriamento de usinas hidrelétricas, estações de tratamento de água e sistemas de irrigação. Essa obstrução, chamada de bioincrustação, eleva os custos de manutenção e pode forçar a paralisação de equipamentos para limpeza. Na usina de Itaipu, por exemplo, a presença do molusco foi identificada em 2001, gerando impactos nos sistemas de resfriamento. Além disso, as colônias podem danificar redes e equipamentos de pescadores artesanais.
O mexilhão-dourado é um organismo filtrador, ou seja, alimenta-se de partículas suspensas na água, como o plâncton. Ao fazer isso em grande escala, ele compete por alimento com espécies nativas, alterando toda a cadeia alimentar aquática. Essa filtragem intensa pode deixar a água mais transparente, mas também mais pobre em nutrientes essenciais para a fauna local.
A distância de mil quilômetros do registro anterior e a ausência do molusco em pontos intermediários levaram os pesquisadores a levantar uma hipótese principal: o transporte por pequenas embarcações. Segundo os autores do estudo, a dispersão natural pela correnteza não explicaria o "salto" geográfico observado.
A suspeita é que larvas microscópicas ou mesmo indivíduos adultos tenham sido transportados aderidos a cascos de barcos, motores ou outros equipamentos náuticos. Essa forma de dispersão passiva permite que a espécie supere barreiras físicas, como barragens, e colonize áreas muito distantes de focos já existentes. Os pesquisadores, no entanto, ressaltam que esta é uma hipótese que precisa de mais investigação, e não uma causa comprovada.
O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) é um molusco bivalve de água doce, originário de rios da China e do Sudeste Asiático. Ele é conhecido por sua concha de cor amarelada ou dourada e por sua capacidade de se fixar em superfícies duras, formando colônias densas.
A espécie chegou à América do Sul acidentalmente na década de 1990, transportada na água de lastro de navios cargueiros que atracaram no Rio da Prata, na Argentina. De lá, espalhou-se para outras bacias hidrográficas, incluindo as do Brasil, principalmente através da navegação.
Não. Segundo especialistas e órgãos como o Ibama, a erradicação completa da espécie em um ambiente já colonizado é considerada inviável com as tecnologias atuais. As estratégias se concentram no controle de danos em estruturas industriais e, principalmente, na prevenção para evitar que o invasor chegue a novas bacias hidrográficas.
A descoberta do mexilhão-dourado no trecho mineiro do Rio São Francisco representa um avanço preocupante da espécie invasora no Brasil. A principal hipótese de transporte por embarcações reforça a necessidade de medidas preventivas, como a limpeza e inspeção de barcos que transitam entre diferentes rios. A ausência do molusco no reservatório de Três Marias é vista como uma janela de oportunidade para intensificar o monitoramento e evitar uma maior disseminação na bacia.
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