Considerado extinto na natureza há 40 anos, o mutum-de-alagoas sobreviveu a partir de cinco aves e agora retorna ao seu habitat na Mata Atlântica. Entenda.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
O mutum-de-alagoas (Mitu mitu), ave considerada extinta na natureza há cerca de 40 anos, está retornando ao seu habitat na Mata Atlântica do Nordeste. Toda a população atual descende de apenas cinco indivíduos, salvos antes do desaparecimento completo da espécie. Atualizado em 22 de outubro de 2026.
Após décadas de um programa de reprodução em cativeiro, casais da ave começaram a ser reintroduzidos em áreas de mata protegida em Alagoas, marcando um passo histórico para a conservação no Brasil e na América Latina, conforme relatado por diversas instituições ambientais.
O desaparecimento do mutum-de-alagoas em vida livre foi resultado de dois fatores principais: a caça predatória e a destruição de seu habitat. A ave vivia em uma área da Mata Atlântica do Nordeste que foi intensamente desmatada para o plantio de cana-de-açúcar, especialmente durante o programa Próalcool, nos anos 1970, que incentivava a derrubada da floresta, segundo o promotor de justiça Alberto Fonseca.
Os últimos registros da espécie na natureza datam do final do século 20, quando a ave passou a ser oficialmente classificada como "Extinta na Natureza" (EW).
A sobrevivência do mutum-de-alagoas deve-se ao trabalho do empresário e ambientalista Pedro Nardelli. Em 1979, ciente do risco iminente de desaparecimento, Nardelli organizou uma expedição e resgatou os últimos exemplares da ave em uma área de floresta prestes a ser desmatada em Alagoas.
A partir de um grupo de apenas cinco aves, iniciou-se um programa de reprodução em cativeiro. Esse número reduzido de indivíduos criou o que os especialistas chamam de "gargalo genético severo", exigindo um manejo criterioso com cruzamentos planejados para garantir a viabilidade da população, como explica o veterinário Felipe Coutinho, do criatório conservacionista Crax.
O retorno do mutum-de-alagoas à natureza é um processo complexo e coordenado por diversas instituições, como o Ministério Público de Alagoas (MPAL), o Instituto para a Preservação da Mata Atlântica (IPMA) e a Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre (Crax).
O projeto envolve várias etapas:
As primeiras solturas ocorreram em 2019 e, desde então, novos casais têm sido reintroduzidos. O objetivo é estabelecer uma população autossustentável, que consiga se reproduzir sem intervenção humana na natureza.
Sim, a espécie continua classificada como "Extinta na Natureza" (EW). Para que essa classificação mude, é preciso que as populações reintroduzidas demonstrem capacidade de sobreviver, se reproduzir e gerar descendentes férteis de forma autônoma na floresta.
Toda a população atual de mutum-de-alagoas descende de apenas cinco indivíduos resgatados da natureza no final da década de 1970, segundo o criatório responsável pelo manejo da espécie.
Como uma ave frugívora de grande porte, o mutum-de-alagoas é um importante dispersor de sementes. Ao se alimentar de frutos, ele espalha sementes pela mata, contribuindo diretamente para a regeneração e a saúde da floresta.
As reintroduções ocorrem em áreas protegidas de Mata Atlântica no estado de Alagoas, incluindo a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) da Usina Coruripe, no sul do estado, e a RPPN Mata do Cedro, em Rio Largo.
A história do mutum-de-alagoas é um raro exemplo de esperança na conservação da biodiversidade. De uma situação crítica, à beira da extinção completa, a espécie ganha uma segunda chance graças a décadas de trabalho científico e dedicação. O sucesso a longo prazo dependerá da proteção contínua de seu habitat contra a caça e o desmatamento, garantindo que as "matas silenciosas" do Nordeste voltem a pulsar com vida.
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