Um filhote resgatado e criado como gato doméstico na Bolívia revelou-se o Leopardus tilcayo, a primeira nova espécie de felino em um século. Entenda.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Atualizado em 22 de junho de 2026. Uma descoberta histórica na Bolívia revelou uma nova espécie de felino, o Leopardus tilcayo, mais de 100 anos após o último achado semelhante. A identificação ocorreu após um morador local encontrar um filhote na floresta, criá-lo em casa acreditando ser um gato doméstico e, anos depois, cientistas confirmarem se tratar de um animal desconhecido pela ciência.
A história começou em 2016, quando um morador da região de Nor Yungas, na Bolívia, encontrou um filhote em uma estrada próxima a uma área de floresta. Acreditando ser um gato doméstico, ele levou o animal para casa. Conforme o "gatinho" crescia, seu comportamento e aparência selvagens ficaram evidentes. Após cerca de um ano, o felino foi encaminhado ao refúgio de vida selvagem Senda Verde, conforme relatado por múltiplas fontes.
Foi no refúgio que a bióloga boliviana Paola Nogales-Ascarrunz, especialista em felinos, examinou o animal em 2017. Intrigada com suas características, como as manchas grandes e irregulares semelhantes às de um leopardo, ela iniciou uma investigação que culminaria na identificação de uma nova espécie.
A confirmação veio por meio de análises genéticas aprofundadas. Uma equipe internacional, liderada pelo geneticista brasileiro Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), comparou o genoma do animal com o de outros 38 indivíduos do gênero Leopardus. Os resultados, publicados na revista científica Current Biology, mostraram que o felino pertencia a uma linhagem evolutiva distinta, que se separou de seus parentes mais próximos há aproximadamente 1,4 milhão de anos.
Segundo Eizirik, trata-se de uma "espécie críptica": animais com aparência muito semelhante a outros já conhecidos, mas que são geneticamente diferentes e seguem histórias evolutivas independentes. Essa semelhança visual fez com que fossem confundidos por muito tempo.
A nova espécie foi batizada de Leopardus tilcayo. O nome "tilcayo" é como o animal já era conhecido pela população local, embora a origem do termo não seja clara, segundo a bióloga Paola Nogales-Ascarrunz.
Esta é a primeira descrição formal de uma espécie de felino vivo inteiramente nova para a ciência em mais de 100 anos, desde 1923. A descoberta também reorganiza a árvore genealógica dos gatos-do-mato sul-americanos, revelando que a diversidade genética do grupo é maior do que se imaginava.
Até o momento, a espécie foi confirmada apenas nas florestas montanhosas de Yungas, na Bolívia. Os cientistas ainda não sabem a extensão completa de sua distribuição geográfica, o tamanho da população ou detalhes sobre sua alimentação e reprodução, destacando a urgência de proteger seu habitat contra ameaças como o desmatamento.
A jornada do Leopardus tilcayo, de um filhote resgatado a um marco na zoologia, ilustra o quanto ainda há para se descobrir sobre a biodiversidade do planeta. O caso reforça a importância da colaboração entre comunidades locais e a ciência, além da necessidade de proteger ecossistemas frágeis que podem abrigar espécies ainda desconhecidas.
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