Estudo revela que ameaça humana força espécies como o macaco-prego e elefantes a usar rotas repetidas para focar na vigilância, com graves impactos ecológicos.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
A presença de caçadores e outras ameaças humanas está forçando mamíferos ameaçados de extinção a alterar drasticamente suas rotas de locomoção, segundo um novo estudo internacional publicado na revista Scientific Reports. Atualizado em 14 de setembro de 2026. Espécies como o macaco-prego-do-peito-amarelo no Brasil e o elefante-africano no Zimbábue estão abandonando a exploração de novos caminhos e optando por trajetos familiares e repetidos em áreas de risco.
Essa estratégia, segundo os pesquisadores, permite que os animais entrem em "piloto automático" para navegar, economizando energia mental que pode ser totalmente dedicada à vigilância contra perigos. O fenômeno é conhecido como "paisagem do medo" e tem consequências profundas para os ecossistemas.
A "paisagem do medo" não se refere a um local físico, mas à percepção de risco que os animais associam a diferentes partes de seu ambiente. "Alguns locais são percebidos como mais seguros, enquanto outros são percebidos como perigosos, dadas as chances maiores de encontrar predadores ou caçadores", explica Patricia Izar, professora do Instituto de Psicologia da USP e coautora do estudo, em entrevista à Agência FAPESP.
Essa percepção molda o comportamento animal, fazendo com que o risco de predação se torne um fator mais decisivo do que a própria disponibilidade de alimentos na escolha de quais áreas frequentar.
O estudo acompanhou dez elefantes-africanos (Loxodonta africana) no Zimbábue e um grupo de 32 a 37 macacos-prego-do-peito-amarelo (Sapajus xanthosternos) na Reserva Biológica de Una, na Bahia. Em ambos os casos, os cientistas observaram um padrão claro: em áreas de maior risco, os animais preferem rotas habituais em vez de explorar novos territórios.
Na Mata Atlântica, os macacos-prego evitam áreas ricas em alimentos, como as "cabrucas" (antigas lavouras de cacau), devido à presença de caçadores. Nesses locais, os primatas, que são naturalmente barulhentos, ficam em silêncio para não chamar atenção. Conforme apurado em estudos anteriores com o mesmo grupo, o medo da caça supera a necessidade de buscar comida.
De forma semelhante, os elefantes-africanos aumentaram o uso de rotas familiares em habitats com presença humana, como florestas, áreas agrícolas e até trechos urbanos. Segundo a pesquisadora Andrea Presotto, da East Carolina University, eles podem optar por caminhos mais difíceis, como brejos e rios, onde o acesso de caçadores é mais restrito, tornando a rota mais segura.
A concentração dos animais em rotas seguras gera um efeito cascata no meio ambiente. Áreas evitadas pelos elefantes, por exemplo, deixam de receber os benefícios do pisoteamento do solo e da dispersão de sementes e nutrientes por meio de suas fezes. Ao mesmo tempo, a concentração excessiva em um mesmo trajeto pode degradar a vegetação local.
Para os macacos-prego, deixar de frequentar certas áreas significa que as sementes das plantas que consomem não são dispersadas, comprometendo a regeneração da floresta. Além disso, a pesquisadora Patricia Izar alerta que a pressão humana pode levar à perda de "culturas animais" — comportamentos específicos de cada grupo, passados entre gerações, que se perdem à medida que os ambientes se tornam uniformes e perigosos.
É um conceito científico que descreve como a percepção de risco de um animal (medo de predadores ou caçadores) influencia a forma como ele utiliza seu ambiente, alterando suas rotas e comportamentos.
O estudo focou no macaco-prego-do-peito-amarelo (Sapajus xanthosternos), na Bahia, Brasil, e no elefante-africano (Loxodonta africana), em Victoria Falls, no Zimbábue.
As consequências incluem a perda de serviços ecossistêmicos, como a dispersão de sementes e a ciclagem de nutrientes, a degradação de áreas superutilizadas e a potencial perda de culturas e comportamentos animais únicos.
A pesquisa demonstra que o impacto humano na vida selvagem vai além da redução populacional, afetando profundamente o comportamento e a cognição de espécies ameaçadas. Ao criar uma "paisagem do medo", a atividade humana força os animais a adotarem estratégias de sobrevivência que, a longo prazo, podem prejudicar a saúde e a resiliência de ecossistemas inteiros.
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