Estudo projeta cenários até 2100 e aponta que espécies como tucunaré e black bass ameaçam a fauna endêmica do Iguaçu, onde 70% dos peixes são únicos.
Olyvio Marques
Editor · Meio Ambiente · · 3 min de leitura
Imagem: gerada por IA / Portal PULSE NEWS BRASIL
Um novo estudo alerta para o alto risco de invasão por peixes não nativos na Bacia do Rio Iguaçu, um ecossistema onde cerca de 70% das espécies são endêmicas, ou seja, não existem em nenhum outro lugar do planeta. Atualizado em 7 de outubro de 2026.
A pesquisa, publicada na Revista Brasileira de Ciências Ambientais, avaliou cinco espécies exóticas e projetou cenários de invasão até 2100, concluindo que peixes predadores como o tucunaré, o black bass e a pescada-branca encontram um ambiente cada vez mais favorável para se estabelecer e ameaçar a biodiversidade local.
A Bacia do Iguaçu é um ambiente de biodiversidade singular, isolado naturalmente pelas Cataratas do Iguaçu. Essa barreira geográfica permitiu que a fauna aquática evoluísse de forma isolada por milhares de anos, resultando em uma alta taxa de endemismo: aproximadamente 70% das espécies de peixes locais são exclusivas da região, conforme aponta o estudo liderado pelo pesquisador Iago Geller. Além disso, cerca de 21% dessas espécies únicas já estão ameaçadas de extinção.
A introdução de qualquer espécie não nativa, como o dourado, que já foi identificado como invasor na bacia, representa uma ameaça direta a peixes de pequeno porte, como os lambaris, que são presas fáceis e podem ter suas populações dizimadas.
Os pesquisadores analisaram cinco espécies não nativas com alto potencial de dano, escolhidas por seu histórico invasor, comportamento predatório e presença em regiões próximas. Três delas já foram registradas esporadicamente na bacia:
Outras duas, que ainda não tiveram registro confirmado mas representam alto risco, são a pescada-branca (Plagioscion squamosissimus) e o oscar (Astronotus crassipinnis). O estudo indica que tucunaré, black bass e a pescada-branca têm a mais alta probabilidade de invasão a curto prazo, exigindo monitoramento urgente.
A principal via de introdução dessas espécies é a ação humana. De acordo com os pesquisadores, as principais causas são a soltura intencional para pesca esportiva, escapes de tanques de piscicultura e o descarte irresponsável de peixes em rios e lagos da bacia.
O estudo não se limitou ao cenário atual. Utilizando modelos de nicho ecológico, os cientistas projetaram a adequabilidade ambiental para essas espécies invasoras em cenários futuros (2040–2060 e 2060–2100). As projeções indicam que, com as mudanças climáticas, a Bacia do Iguaçu pode se tornar ainda mais favorável para a proliferação desses peixes, ampliando a área de risco e a pressão sobre as espécies nativas.
Peixes endêmicos são espécies que ocorrem naturalmente em uma única e específica região geográfica do planeta. No caso da Bacia do Iguaçu, a extinção de uma dessas espécies significa sua perda definitiva para a biodiversidade global.
Apesar de ser nativo do Brasil, o tucunaré pertence às bacias Amazônica e Araguaia-Tocantins. Quando introduzido em outras bacias, como a do Iguaçu ou em represas do Sudeste, ele se torna um invasor. Por ser um predador de topo e não ter inimigos naturais nesses novos ambientes, ele se reproduz rapidamente e dizima as populações de peixes nativos.
Além da crescente ameaça das espécies invasoras, a ictiofauna da Bacia do Iguaçu também sofre com os sucessivos barramentos para hidrelétricas, a perda de qualidade dos habitats e a poluição, fatores que fragilizam ainda mais as populações de peixes nativos e endêmicos.
O estudo reforça a urgência de políticas públicas rigorosas para monitorar e conter a disseminação de espécies não nativas na Bacia do Iguaçu. Ações de prevenção, fiscalização da piscicultura e conscientização sobre os riscos da soltura de peixes são fundamentais para preservar um patrimônio biológico único no mundo antes que um colapso ambiental se torne inevitável.
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